domingo, 5 de julho de 2009

O Pós-Real


Fernando Henrique Cardoso


Por mais que o governo atual se tenha omitido em rememorar os 15 anos do Real e que o temor da inflação esteja distante do cotidiano das pessoas, muita gente escreveu nas páginas econômicas dos jornais sobre o significado do controle da inflação desde os "longínquos" tempos de 1994. Não cabe, portanto, voltar ao tema.

Desejo chamar a atenção para conquistas que ainda não fizemos ou para as que não me parecem asseguradas. Os progressos na construção de um país mais estável e melhor - depois do cataclismo inflacionário do final dos anos 70 ao início dos 90 - começaram antes de 1994.

A organização do Tesouro Nacional, o fim do orçamento monetário, a abertura comercial, a renegociação da dívida externa em outubro de 1993 e o início da renegociação das dívidas dos Estados e municípios foram passos prévios indispensáveis à estabilização.

Da mesma forma como foi importante o saneamento financeiro que levou ao fechamento de cerca de cem bancos sob as regras do Proer e do Proes, na época tão vilipendiados por setores da esquerda e da direita que tinham olhares antiquados.

A redemocratização do Brasil deu o marco de referência no qual esses processos ocorreram. As modificações foram feitas às claras, com muita luta no Congresso e nos tribunais, sem "tapetão".

Até que ponto a estabilidade está garantida? Depende: se o tripé da política econômica (metas de inflação, câmbio flutuante e Lei de Responsabilidade Fiscal) for mantido e levado adiante com consistência, pouco haverá a temer. Mas isso ocorrerá?

Pelo que se vê nos últimos meses, há riscos: gastos crescentes, sobretudo onerando a folha de pagamentos, com arrecadação cadente, são sinais inquietantes. Eles não são inquietantes em si mesmos, pois bem poderiam ser justificados, como quer o governo, pelo momento difícil da economia.

Então, por que a dúvida?

A dúvida decorre da falta de modificações comportamentais, que não dependem só do governo, mas para as quais a ação pública tem efeito catalisador. Voltou a se instaurar no Brasil um certo desdém quanto à gravidade de "pequenos" desvios que, pouco a pouco, podem tornar-se uma avalanche.

Isso não ocorre só na economia. Nela, a aceitação pela opinião pública de um "pequeno" aumento dos gastos com pessoal, por exemplo, embora postergável, apoia-se na ideia de que "é preciso dar emprego", ou de que "sem um governo com mais funcionários como atender às necessidades sociais do País?"

Em si, os comentários seriam justificáveis. Porém a reiteração de práticas fiscais menos rigorosas, e não só no caso de pessoal, mas também de facilidades na concessão de subsídios a empresas, debilita a higidez de um sistema público que nunca foi muito controlado.

Dito assim, de forma quase banal, pode parecer que faço tempestade em copo d' agua. Por trás dos exemplos triviais, entretanto, está a verdadeira preocupação: a paralisia do espírito reformista, a leniência com a corrupção, a inversão na relação entre "baixo" e "alto" clero no Congresso - ou mesmo a sua identidade em práticas condenáveis - estão a indicar que a velha cultura corporativista-clientelista está estrangulando o impulso de modernização que se fez sentir com mais força a partir da implantação do Real.

Hoje prevalece uma política de concessões continuadas, que agrada aos beneficiários, sejam eles pobres ou ricos, sendo facilmente assimilada e aplaudida. Temo que o pós-Real, tal como está sendo vivido, encubra uma volta ao passado, em vez de ser um passo adiante na modernização do País.

Mesmo noutro aspecto, crucial para a consolidação dos ganhos do Real, o da política de desenvolvimento econômico, há sinais inquietantes. Sempre foi aspiração nacional ver o crescimento sustentável da economia. Posso dizer o quanto me decepcionaram os efeitos negativos das crises financeiras internacionais sobre as taxas de crescimento.

O mesmo ocorre agora com o presidente Lula, que lastima a queda dos 5% de crescimento do ano passado para o ponto quase zero de 2009. Mas isso é efeito de ciclos e conjunturas. O que independe deles é o "estilo de desenvolvimento".

Quando se acrescenta o adjetivo sustentável, não se quer dizer apenas que tenha continuidade no tempo, pois os ciclos continuarão a ocorrer e a afetar as taxas de crescimento. Quer dizer, isso sim, que não seja predatório dos recursos não-renováveis nem do meio ambiente em geral.

Ora, em matéria de crescimento econômico, estamos assistindo no pós-Real a uma volta ao passado. O espírito dos anos 70, do "milagre econômico" dos governos militares, voltou à cena: um "desenvolvimentismo produtivista", que não busca a compatibilidade entre crescimento econômico e a geração de novas formas de energia, muito menos de restrição às emissões de gases-estufa.

Quase voltamos ao "bendita poluição" dos anos 70, que significava mais fábricas e menos miséria. Se na época essa visão já não se justificava, menos ainda hoje.

Essa captura do novo pelo velho, esse renascer no Brasil de uma cultura do desperdício, do patrimonialismo e da ocupação predatória do território vêm juntos com a neutralização de forças renovadoras, agora cooptadas.

É o caso do próprio PT, que trocou a luta contra os resquícios do Estado Novo na legislação sindical e a bandeira da ética na política pelo que há de mais arcaico em nossas práticas políticas. Daí que falar de "reformas" passou a ser politicamente incorreto; e crescer a qualquer preço, prova do sucesso.

Não quero ser pessimista, menos ainda em época de celebração. Mas, como alertava o conselheiro Acácio, as consequências vêm sempre depois. Temo, reitero, que o pós-Real esteja sendo vivido como se, assegurada a estabilização, bastasse "pau na máquina" e o futuro do País estaria garantido.

Entretanto, há muita construção ainda a ser feita e boa parte dela diz respeito às instituições e ao comportamento. Quando se trata de mudança cultural, se pelo menos não engatinhamos, retrocedemos. O ideal seria avançar muito mais.



Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, foi presidente da República

Voto secreto acoberta malfeitores


Lucia Hippolito

A absolvição do deputado Edmar Moreira (o homem do castelo) no Conselho de Ética da Câmara traz novamente à discussão a questão do voto secreto no Congresso.

No Conselho de Ética o voto é aberto. O relator recolhe testemunhos, investiga indícios, estuda depoimentos. Produz um relatório que é abertamente discutido.

Em seguida, os membros do Conselho dão seu voto em voz alta, para condenar ou absolver. Tudo às claras.

No plenário, a situação é outra. Em primeiro lugar, os nobres deputados sequer se dão ao trabalho de ler um relatório que pede a cassação de um colega. Votam segundo suas próprias conveniências.

Como o voto é secreto, não precisam nem produzir uma desculpa esfarrapada.

O voto secreto tem servido, nos últimos anos, para permitir que mensaleiros confessos, como o ex-deputado Professor Luizinho ou o atual deputado João Paulo Cunha, sejam absolvidos pelo plenário. Ou ainda que alguém como o senador Renan Calheiros escape impune.

Mas não é simples resolver essa questão. Pela Constituição de 1988, poucos são os casos de voto secreto no Congresso. São eles: vetos do presidente da República a leis aprovadas pelo Congresso; aprovação de autoridades pelo Senado Federal, e autorização para processar parlamentares presos por flagrante de crime inafiançável.

Mas a Constituição determina também que cassação de mandato de parlamentares seja por voto secreto (Art. 57, § 2º).

Reside justamente aí o ponto mais polêmico. Quando vota o impeachment de um presidente da República (Lei nº 1.079/50), a Câmara dos Deputados o faz através de voto aberto.

Assim, não parece justo que, para apear o presidente da República, o voto seja aberto e para cassar o mandato de um parlamentar, seja secreto.

Mas quem faz as leis são os parlamentares.

Atualmente, tramitam no Congresso duas propostas de emenda constitucional a respeito do voto secreto.

o Senado, a PEC propõe a extinção do voto secreto apenas nos casos de cassação de mandato, mantendo-o na apreciação dos vetos do presidente e na aprovação de autoridades (prerrogativa exclusiva do Senado). A PEC está pronta para ir ao plenário.

Na Câmara, a PEC propõe a extinção pura e simples do voto secreto no Congresso. Já foi aprovada em primeiro turno no final de 2006 – e dorme na gaveta do presidente da casa, deputado Michel Temer, que não convoca o segundo turno de votação.

Enquanto esta questão não se decide, o voto secreto continuará a ser utilizado para proteger malfeitores.

sábado, 4 de julho de 2009

Porque hoje é feriado nos EUA


Rainer Sousa - Graduado em História - (Equipe Brasil Escola)

No século XVIII, observamos o processo de crise das monarquias absolutistas, sinalizando o fim de um período chamado pelos liberais de Antigo Regime. Combatendo os princípios religiosos, filosóficos e políticos que fundamentavam a definição de um poder centralizado e a manutenção de certas práticas feudais, as revoluções burguesas sinalizavam a criação de uma nova forma de poder estabelecido.

De acordo com a historiografia, a primeira experiência revolucionária a defender as idéias iluministas e reivindicar o fim da opressão monárquica, ocorreu no território das Treze Colônias inglesas. De posse da Coroa Britânica, as Treze Colônias desenvolveram certas peculiaridades econômicas, políticas e culturais. Sem contar com um modelo homogêneo de exploração colonial, os habitantes dessa região tinham uma relação diferente com sua metrópole.

Conhecida como “negligência salutar”, a liberdade concedida pelo governo britânico aos colonos norte-americanos foi responsável pelo florescimento de um espírito autônomo e a consolidação de diferentes formas de exploração do território. Ao sul, a economia baseada na plantation de exportação sustentada pelo trabalho escravo fazia contraste com as pequenas propriedades e as atividades comerciais empreendidas pelos colonos do norte.

Ao longo do século XVII, o envolvimento da Inglaterra em guerras pela Europa tornou-se um dos grandes fatores explicativos de toda liberdade política e econômica concedida às Treze Colônias. Entre os conflitos em que a Inglaterra se envolveu, a Guerra dos Sete Anos (1756 – 1763) foi responsável pelo esvaziamento dos cofres públicos do país. Buscando sanear suas contas, a Inglaterra resolveu enrijecer suas relações com as colônias.

Em 1764, a chamada Lei do Açúcar obrigava os colonos a pagar uma taxa adicional sob qualquer carregamento de açúcar que não pertencesse às colônias britânicas. Com tal exigência, a autonomia econômica dos colonos começava a ser ameaçada. No ano seguinte, a Lei do Selo exigia a compra de um selo presente em todos os documentos que circulassem pelo território. Já em 1773, a Lei do Chá obrigava a colônia a consumir somente o chá oriundo das embarcações britânicas.

Inconformados com tais desmandos e inspirados pelos escritos dos pensadores John Locke e Thomas Paine – francos opositores da dominação colonial – os colonos norte-americanos começaram a se opor à presença britânica nas Treze Colônias. Em dezembro de 1773, organizaram uma revolta contra o monopólio do chá que ficou conhecida como Boston Tea Party. Intransigente aos protestos coloniais, a Inglaterra decidiu fechar o porto de Boston (local da revolta) e impor as chamadas Leis Intoleráveis.


No ano seguinte, reunidos no Primeiro Congresso da Filadélfia, os colonos redigiram um documento exigindo o fim das exigências metropolitanas. No Segundo Congresso da Filadélfia, ocorrido em 1776, os colonos resolveram romper definitivamente com a Inglaterra, proclamando a sua Independência.

Não reconhecendo as resoluções do Congresso da Filadélfia, a Inglaterra entrou em conflito contras as 13 colônias. Esses confrontos marcaram a chamada Guerra de Independência das Treze colônias. Apoiados pelos franceses, inimigos históricos da Inglaterra, as Treze Colônias venceram a guerra, tendo sua independência reconhecida em 1783.

Adotando um sistema político republicano e federalista, os Estados Unidos promulgaram sua carta constitucional em 1787. Os ideais de liberdade e prosperidade defendidos pelos fundadores da república norte-americana não refletiam a situação dispares dos estados do Norte e do Sul. Tais diferenças acabaram por promover um conflito interno, que ficou conhecido como Guerra de Secessão.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

" Pra frente Sucupira! "

A saia justa do PT

Lucia Hippolito

O Partido dos Trabalhadores tenta fazer do limão uma limonada.

Depois de passar alguns dias como baratas tontas – não foi a primeira vez, nem será a última –, os senadores petistas tentam agora transformar a avalanche de escândalos que joga na lama o Senado Federal em responsabilização dos Democratas.

A estratégia acertada na reunião da bancada do PT foi colocada em prática durante a sessão do Senado desta quinta-feira.

O senador Aloizio Mercadante foi à tribuna exercer aquilo em que ele ficou especialista: o contorcionismo verbal, a defesa do indefensável.

Justificou o apoio a José Sarney, procurou envolver todos os senadores, inclusive da oposição, num projeto de recuperação do Senado.

E responsabilizou o Democratas, dono há várias legislaturas, da Primeira Secretaria da Mesa, responsável pela administração da casa.

É evidente que os Democratas, desde quando eram PFL, têm muita responsabilidade nos desmandos que diariamente vêm à luz no Senado. Mas não é disso que se trata.

A estratégia petista era de "toma, que o filho é teu".

Aparteado pelos senadores de seu partido, que fizeram coro com suas acusações, o senador Mercadante tentou – e conseguiu, em parte – esquivar-se de discutir o apoio à permanência de José Sarney na presidência do Senado.

É compreensível a aflição dos senadores petistas. Dos 81 senadores, 54 terão que renovar seu mandato em outubro de 2010.

Entre os 12 senadores petistas, nove estão nessa situação: Aloizio Mercadante (SP); Augusto Botelho (RR); Delcídio Amaral (MS); Fátima Cleide (RO); Flávio Arns (PR); Ideli Salvatti (SC); Marina Silva (AC); Paulo Paim (RS) e Serys Slhessarenko (MT).

O PT teve enorme trabalho para se livrar do escândalo do mensalão. Os 40 réus no STF não conseguiram prejudicar os senadores petistas. O mensalão bateu mais forte na Câmara dos Deputados.

E agora? Como vão se apresentar diante do eleitorado com este fardo: sustentaram a permanência de Sarney na presidência do Senado. Aliaram-se ao que existe de mais arcaico, patrimonialista e clientelista na política brasileira.

Alguém que privatizou o Senado Federal para seus interesses, de seus familiares e apaniguados.

Do alto de sua popularidade, o presidente Lula se dá ao luxo de apoiar Sarney, beijar as mãos de Jader Barbalho, passar a mão na cabeça de Severino Cavalcanti, apoiar Renan Calheiros.

A evolução da crise e o processo eleitoral de 2010 vão mostrar se o PT, ao obedecer à ordem de Lula para apoiar Sarney a todo custo, conseguirá recuperar-se a tempo, sem colocar em risco a reeleição de seus nove senadores.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

FHC e Lula

Carlos Alberto Sardenberg

O presidente Lula patrocinou dois aperfeiçoamentos importantes no conjunto do Real. Primeiro, o programa de compra de reservas, iniciado em 2003, quando começaram a sobrar dólares nas contas brasileiras. O segundo foi elevar o presidente do Banco Central ao nível de ministro de estado, o que conferiu mais autonomia e poder ao condutor da política monetária. Outro avanço paralelo foi o conjunto de reformas microeconômicas, como as novas regras do crédito imobiliário, que melhoraram o ambiente de negócios.

O resto é FHC. A responsabilidade fiscal, primeira perna do tripé, começou a ser construída em 1995, com a reestruturação da dívida de estados e municípios, encorpou com as metas de superávit primário (iniciadas em 1998) e completou-se com a crucial Lei de Responsabilidade Fiscal, de 2000.

O câmbio flutuante começou torto, em meio à crise de 1999, mas acabou emplacando. E o regime de metas de inflação, a terceira perna, começou a funcionar há dez anos. Os instrumentos paralelos foram as reformas, inclusive da Previdência, as privatizações, o saneamento do sistema financeiro (1995) e a renegociação da dívida externa pública.

Compreende-se que o governo Lula se tenha fingido de morto diante dos 15 anos da introdução da nova moeda, comemorados ontem. Sobretudo porque as próximas eleições presidenciais colocarão de novo PSDB e PT frente a frente.

Foi a mesma história no início de 1994, quando o então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, expos os detalhes do Plano Real ao então presidente do PT, José Dirceu.

FHC buscava apoio para o que considerava um programa nacional. Dirceu queria saber se o PSDB teria candidato à presidência.

Na ocasião, os tucanos nem tinham candidato. Mas o PT calculou que um sucesso econômico, ainda que provisório, daria forte sustentação ao PSDB, assim como o efêmero Cruzado dera uma ampla vitória eleitoral ao PMDB, em 1986. Acrescente-se que os economistas do PT não eram preparados para esse tipo de teoria (a que sustentou o Real) e Lula acabou sendo levado a um brutal erro de avaliação. Disse que o Real era um pesadelo para os trabalhadores, isso quando os mais pobres se beneficiavam de um enorme ganho de renda com a súbita estabilização da moeda.

O cálculo político do PT estava certo. O Real deu duas vitórias a FHC (94 e 98). Mas a análise econômica estava completamente equivocada, um erro no qual o PT perseverou ao longo do tempo. Criticou e combateu no Congresso e nos tribunais praticamente todas as medidas do Plano Real. Para esquecer tudo quando Lula chegou à presidência.

Como foi possível fazer dessa transição um movimento crível para a sociedade? Primeiro, Lula foi ajudado pelo enorme desgaste que sucessivas crises, locais e internacionais, impuseram ao governo FHC. Inclusive a última, de 2002, quando o mercado se deteriorou pelo medo das políticas econômicas até então pregadas pelo PT, isto gerando inflação e crise externa, que, ironicamente, acabaram ajudando o próprio Lula.

Sua trajetória foi aberta, ainda, pela dificuldade do candidato tucano, José Serra, de lidar com o desgaste de um governo do qual participara e do qual tentou se distanciar.

Mas como os eleitores aprovaram um governo Lula que, eleito em nome da mudança, manteve intactas as bases da política econômica? Dois fatores essenciais: a fantástica onda de crescimento mundial que carregou um Brasil já normalizado com a estabilidade macroeconômica; e a enorme distribuição de renda promovida por Lula com a ampliação do Bolsa Família e, sobretudo, com os aumentos reais do salário mínimo (o governo paga o mínimo para quase 20 milhões de aposentados, pensionistas e outros beneficiários). E mais, paralelamente, as contratações e aumentos para o funcionalismo público.

Mas o fato de Lula ter aderido aos pressupostos do Real — primeiro, por medo e, depois, porque estavam funcionando, e nunca por convicção — trouxe um preço para o país. Lula simplesmente não avançou além daqueles dois aperfeiçoamentos na área do BC. Nenhuma reforma importante, nenhuma providência para continuar a desindexação da economia, nenhum progresso na qualidade dos gastos públicos, nada de reforma tributária. Tudo por fazer.

CARLOS ALBERTO SARDENBERG é jornalista.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

O dilema de Sarney

Cristiana Lôbo

Diante da crescente pressão de partidos para que se licencie do cargo de presidente do Senado, José Sarney mandou um recado por meio de seu partido, o PMDB: se tiver de pedir licença, prefere a renúncia ao cargo. Assim, o Senado teria de escolher um novo presidente no prazo de 45 dias, período em que estaria sob o comando de um senador de oposição, o senador Marcone Perillo (PSDB-GO).

Está claro para as principais lideranças do Congresso que Sarney segue perdendo condições de continuar na presidência do Senado. A partir desta constatação, está sendo buscada uma solução: licença, renúncia ou mesmo a criação de uma comissão de senadores - idéia proposta pelo PSDB e pelo PT, separadamente - para propor mudanças na estrutura administrativa do Senado, sem que Sarney tenha de formalizar uma saída.

O líder do PMDB, Renan Calheiros, tem dito a seus interlocutores que Sarney já saiu pela porta dos fundos quando deixou o Palácio do Planalto para a chegada de Fernando Collor, mas agora não faria o mesmo.

No fim de um dia em que quatro partidos pediram sua licença, Sarney recebeu a visita da ministra Dilma Roussef em sua residência, na Península dos Ministros, com uma mensagem do presidente Lula. O presidente quer que Sarney espere sua volta antes de anunciar qualquer decisão.

A tarde desta quarta-feira era esperada com ansiedade porque Sarney havia anunciado presença no comando da sessão Deliberativa, a partir das 16 horas, momento em que os líderes se pronunciam e poderiam até discursar em favor de sua saída. Porém, com a morte do deputado José Aristodemo Pinotti, deverá ser apresentado pelo PMDB pedido de suspensão da sessão em homenagem a Pinotti. Assim, Sarney evitaria a sessão em que os colegas poderiam voltar a carga por seu afastamento.

O fato é que no Senado todos aguardam para esta semana o desfecho do caso José Sarney: seja com licença, renúncia ou criação de uma comissão de senadores para comandar as mudanças na Casa. Está claro que ele não terá condições de comandar o processo.

Plano Real, 15 anos. Parabéns!

Míriam Leitão

O Plano Real completa 15 anos de existência hoje, com muito a comemorar. Apesar dos altos e baixos, dos períodos de inflação maior, este fez com que saíssemos de um ambiente para outro totalmente diferente. Não conseguiu resolver todos os problemas da economia, como nenhum plano consegue sozinho, mas foi capaz de controlar a hiperinflação, um tormento que o país enfrentava há décadas.

Antes do Real, cada plano foi uma grande esperança. Foram vários que fracassaram, o mais famoso deles, o Cruzado. Hoje, grande parte da população não sabe o que é isso, já que 100 milhões de brasileiros tem menos de 30 anos. Só viram esse filme na infância.

A época da hiperinflação era um tumulto, um tormento na vida das pessoas. Quem tinha muito dinheiro, ganhava com suas aplicações. Quem tinha pouco dinheiro não conseguia nem ir ao banco, ter conta bancária. Quanto menos você tinha para investir, menor era a remuneração. O dia-a-dia da Casa da Moeda era um tumulto, sempre substituindo notas que perdiam o valor, trabalhando em três turnos. As pessoas tinham que comprar as coisas na hora, com medo do preço aumentar no dia seguinte. E que empresa poderia fazer planos para o futuro, planejar abrir um negócio daqui a seis meses? Em compensação, tinha muita gente que ganhava. Até o governo ganhava, cortando o prazo de pagamento de impostos, mas alongando o que ele pagava seus compromissos.

O Plano Real foi testado várias vezes e conquistou o mérito de criar uma engenharia monetária que livrou o Brasil daquele passado da hiperinflação. Foi adotado até pelo governo seguinte, do PT. Mas qual será o segredo dele? O plano funcionou porque os brasileiros queriam uma organização melhor da economia. Se Lula tivesse demonstrado durante a campanha que podia trazer de volta aquela inflação, por exemplo, certamente não teria sido eleito. O Plano Real funcionou em parte devido à engenharia monetária que criou, mas em grande parte também pelo desejo das pessoas de ter uma moeda confiável.

terça-feira, 30 de junho de 2009

O Blog em um minuto

O PSOL protocolou na Mesa Diretora do Senado dois pedidos de investigação pelo Conselho de Ética, por quebra de decoro parlamentar. Um é contra o atual presidente da Casa, José Sarney, e o outro, contra o ex-presidente Renan Calheiros. O partido responsabiliza os dois senadores pelos atos secretos dos últimos 14 anos no Senado.


Os senadores do Democratas decidiram pedir ao presidente do Senado, José Sarney, que se afaste do cargo, até que sejam concluídas as investigações sobre as irregularidades administrativas na Casa.


Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada concluiu que os brasileiros com renda de até 2 salários mínimos têm de trabalhar 197 dias do ano para pagar os tributos cobrados pela União, Estados e municípios. É quase o dobro dos 106 dias de esforço exigido dos brasileiros mais ricos, que ganham acima de 30 mínimos...


... Segundo o levantamento, as famílias mais pobres comprometeram 53,9% de tudo que ganharam em 2008 com o pagamento de impostos. Em 2004, esse percentual era de 48,8%. Para as famílias mais ricas, o peso dos tributos sobre a renda cresceu menos, passando de 26,3 para 29% em quatro anos.


O Ministério da Saúde confirmou mais 55 casos de gripe suína, sendo 45 no Rio Grande do Sul. O total no país chega a 680, incluindo uma morte. O Ministério ressaltou que quase todos os pacientes receberam alta ou estão em processo de recuperação.


A Bolsa de Valores de São Paulo fechou em baixa de 1,29 % com 51 mil 465 pontos.


O dólar comercial fechou estável, a Um real 964. No acumulado do primeiro semestre, a moeda americana registra desvalorização de 15,8%.


O euro está cotado a 2 reais 755, baixa de 0,44%.

Carta de Sarney aos senadores

"Em face da reportagem do jornal O Estado de S. Paulo em sua edição do último dia 25, julguei do meu dever pedir um pouco de atenção para repor a verdade dos fatos ali deturpados por imprecisões, omissões e falsas ilações.

No mesmo dia da publicação da reportagem, quinta feira, o HSBC divulgou uma nota que, lamentavelmente, não mereceu o mesmo destaque da falsa denúncia. Nela, o banco esclarece a cronologia dos fatos e os modestos resultados empresariais que, por si só, calam quaisquer insinuações de favorecimento. Peço-lhe ler a nota do HSBC.

A autorização do Senado - peço para fixar essa data - para operar em crédito consignado com o HSBC foi em maio de 2005 quando eu não ocupava nenhum cargo na Casa. A empresa da qual é sócio José Adriano Sarney, a Sarcris, começou a operar em 11 de setembro de 2007, portanto, dois anos depois da autorização.

A empresa atuou como parceira do banco num mercado que inclui empresas privadas e instituições públicas. Quando assumi a presidência em fevereiro, a Sarcris já estava descredenciada pelo HSBC e não operava mais no Senado.

Assim, nenhuma ligação pode ser feita entre a minha presidência e o fato objeto da reportagem.

Quero também comunicar-lhe que pedi à Polícia Federal que investigue todos os empréstimos consignados no Senado e as empresas que os operam.

Faço juntar, para seu conhecimento, a carta encaminhada por meu neto ao "Estado de S. Paulo", a nota do HSBC com mais detalhes sobre o assunto e o meu pedido de investigação à Polícia Federal.

Quero reafirmar que nenhuma denúncia ficará sem apuração e que todas as medidas estão sendo adotadas com firmeza e decisão.

Com os meus cumprimentos.


Senador José Sarney (PMDB-AP)"

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Parabéns, Lucia!


É com alegria que hoje, 29, comemora-se o aniversário da minha queridíssima Lucia Hippolito.

Mulher e profissional fantástica, inteligente e elegantíssima que, diariamente, nos brindam com seus comentários relevantes e atualizados sobre a política do nosso País.

É com maestria que a parabenizo por este dia tão especial.

Meus parabéns, Lucia Hippolito!

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Rádio Sucupira desta sexta-feira

http://cbn.globoradio.globo.com/colunas/radio-sucupira/2009/06/26/SEXTA-FEIRA-26062009.htm

CBN na Travessa




“Comida e sedução: do jiló ao caviar, a gastronomia é o melhor caminho para se viver bem”. Na próxima terça-feira, dia 30 de junho, das 20h às 21h, a crítica gastronômica Danusia Barbara estará na Livraria da Travessa do Barrashopping para falar sobre os prazeres da boa mesa. Comer bem está ao alcance de todos? Quais são os segredos de um prato impecável?

Danusia Barbara é o nome de referência da crítica gastronômica no Rio de Janeiro e seu guia de restaurantes já está na 21ª edição. Danusia também é comentarista da Rádio CBN, de segunda a sexta, no quadro CBN Sabores, que vai ao ar às 11h40min.

O talk show com Danusia Barbara na Travessa do Barrashopping integra a série de encontros “CBN na Travessa”, que se realiza sempre na última terça de cada mês. O evento é aberto ao público e a plateia é convidada a participar com perguntas.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

O incomum


Míriam Leitão

Se uma coluna de economia vai abordar uma crise política, espera-se que ela pondere que a paralisia legislativa, decorrente do escândalo, seja ele qual for, impede decisões que ajudarão a enfrentar problemas econômicos. Mas não é isso que direi. Por um motivo simples: o governo não fez qualquer plano para enfrentar a crise internacional. Segue dando deduções de impostos à sua clientela.

Não há qualquer reforma significativa para se construir uma ponte a uma outra etapa da atividade econômica. Outras crises serviram para avançar. Esta não. O Congresso obviamente não vai votar nada de importante. Se quisesse, haveria reforma tributária realmente relevante para votar? Haveria modernização das relações trabalhistas para criar mais emprego formal? Haveria mudança na estrutura da Previdência que permitisse ao país reduzir o temor de colapso do sistema, diante do inevitável envelhecimento da população? Nada disso está sendo proposto.

O Congresso está minado. Há propostas para aumentar a área a ser desmatada da Amazônia; há um movimento para derrubar um veto presidencial que pode custar R$38 bilhões ao Tesouro; há uma negociação para acabar com o fator previdenciário, a meia sola que foi feita quando não se conseguiu fazer uma reforma da Previdência.

Esta crise política não é importante por razões econômicas, apesar de acontecer no meio de uma turbulência global. Ela é importante porque é política. E porque parece ter aprisionado o país num beco sem saída. O que fazer quando falta um ano e meio para eleições gerais e o Senado não se aguenta em pé? Esta semana caiu mais um diretor-geral da Casa, e as denúncias continuam diárias.

Por não haver saída, os escândalos na dimensão que aconteceram transformaram-se em crise institucional. E não há saída visível. No parlamentarismo, o primeiro-ministro poderia convocar eleições gerais.

O senador José Sarney (PMDB-AP) disse na semana passada um pedaço da verdade. A crise é do Senado, de fato. A outra parte da frase é falsa porque a crise é dele também. Dos dois. Difícil separa-los, pelo fato de Sarney estar na terceira presidência, pelo fato de ele ter pendurado parentes, contraparentes, amigos, parentes de amigos nos vários galhos dessa frondosa árvore. Porque Agaciel Maia é cria dele. Sarney é um símbolo tão completo da compulsão de tomar como privada a coisa pública que parece caricatura.

O que faz um homem rico, que tem uma ilha, uma mansão em frente ao mar e um sítio em área valorizada, aceitar "auxílio-moradia"? O que o faz, tendo empresas repletas de cargos e salários a preencher, pendurar sua parentela no Senado? É tão antiga essa compulsão que em 1986 a imprensa já publicava que a então jovem e sem mandato Roseana Sarney conseguira um emprego no Senado sem ter feito concurso (vejam no blog www.miriamleitao.com).

O que espanta é a falta de necessidade de tudo o que Sarney fez. Se ele precisasse e fizesse uso privado da coisa pública já seria um erro. Não precisando, é bizarro. O presidente Lula sugeriu que olhássemos o passado do senador. Ele tem um passado marcante. Por 25 anos foi um dos biombos civis de um regime que matou, torturou, censurou, cassou, fechou Congresso, e rasgou a Constituição. Sarney permaneceu fiel a ele. Esse é o passado que o distingue.

O que torna também sua biografia diferente é que ele teve uma saída honrosa. A história, generosa, pôs na frente dele uma porta de saída e ele se tornou o primeiro presidente civil e teve chance de ajudar a construir as instituições democráticas. A honra não lhe coube por méritos, mas pela fatalidade. Sarney tomou algumas decisões valiosas, outras nem tanto. Destacaria três feitos: o fim da conta de movimento do Banco do Brasil, que foi o primeiro passo para o avanço fiscal no país; a criação da Secretaria do Tesouro; a criação do Ibama. Seu programa do leite era puro assistencialismo, mas melhorou a saúde de milhões de crianças. Seu melhor programa de estabilização foi perdido por sua incapacidade de fazer o necessário ajuste fiscal.

Seria mais uma presidência, com erros e acertos, mas o que pesou contra foi sua insistência num quinto ano de mandato.

Até isso teria se desculpado se, ao final da extrema e imerecida honra de presidir o Brasil, tivesse ido tratar de bons afazeres, de preferência ajudando a resgatar o seu Maranhão do destino de pobreza, desigualdade e analfabetismo que o aprisiona desde sempre.

Não com cargos políticos, mas com doação do seu tempo e energia. Mas ele permaneceu no poder e foi neste tempo, de lá para cá, que montou as bases do atual compadrio, dos atos secretos, dos desvios inaceitáveis dos quais tantos senadores se aproveitam.

O Senado está doente. O país não se sente mais representado pelo Congresso. As iniciativas de reforma política são grotescas pelo despropósito. O voto em lista que vez por outra ronda a vida nacional é o aprofundamento da rapinagem. O roubo seria do próprio voto. O Senado que pense em propostas construtivas como a de acabar com o suplente, esta excrescência só comparável aos biônicos e que hoje domina pelo menos 20% da Casa. A crise do Senado e dos senadores é profunda. Séria. Incomum.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Jornal O Globo

DECRETOS SECRETOS

FATO: Atos administrativos secretos foram usados para nomear parentes, amigos, criar cargos e aumentar salários. Levantamento mostrou que mais de 600 decisões não foram publicadas. Na relação, aparecem as nomeações de parentes e afilhados de Sarney e da ex-presidente da Câmara Municipal de Murici (AL), ligada a Renan Calheiros. Também se descobriu que os atos secretos pagaram o salário de um mordomo da ex-senadora Roseana Sarney, reformas luxuosas e cirurgias estéticas.

PROVIDÊNCIA: O diretor-geral do Senado, Alexandre Gazineo, e o diretor de Recursos Humanos, Ralph Siqueira, foram exonerados dos seus cargos. Sarney anunciou a criação de uma comissão de sindicância acompanhada pelo Ministério Público (MP) e pelo Tribunal de Contas da União (TCU) para investigar as denúncias.

AUXÍLIO-MORADIA

FATO: O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), admitiu que vinha recebendo R$ 3.800 de auxílio-moradia desde 2008. O benefício não deveria ser concedido a quem, como Sarney, tem moradia em Brasília.

PROVIDÊNCIA: Após pedir desculpas por primeiramente ter dito que nunca recebeu o auxílio, Sarney disse que mandou cortar o recebimento do benefício. Outros senadores que também receberam o auxílio vão devolver o dinheiro em parcelas mensais de 10% do salário até efetuar o pagamento em sua totalidade.

ZOGHBI E A BABÁ COMO LARANJA

FATO: O ex-diretor de Recursos Humanos do Senado João Carlos Zoghbi é acusado de cobrar propina para favorecer empresas interessadas em contratos com a Casa. Também foi acusado de usar a ex-babá como laranja para receber R$ 2,3 milhões do Banco Cruzeiro do Sul, responsável por operações de empréstimos consignados a funcionários do Senado.

PROVIDÊNCIA: Após depoimento, Zoghbi foi indiciado pela Polícia Legislativa da Casa por corrupção passiva e formação de quadrilha, por indícios de práticas ilegais na concessão de empréstimos. O Ministério Público decidiu encaminhar os autos do processo à Polícia Federal.

AGACIEL

FATO: O diretor-geral do Senado, Agaciel Maia, foi acusado de omitir de seu patrimônio uma mansão de R$ 5 milhões e de fazer contratos irregulares.

PROVIDÊNCIA: Ele perdeu o cargo após 14 anos na função, mas continua atuando nos bastidores. Ouvido pelos integrantes da Mesa, responsabilizou, por esses contratos, os senadores que ocuparam o cargo de 1º secretário durante sua gestão. Da mesma forma, atribuiu aos presidentes da Casa no período a criação de dezenas de diretorias.


HORAS EXTRAS

FATO: Pagamento de R$ 6,2 milhões de horas extras a 3.383 servidores em janeiro, no recesso parlamentar.

PROVIDÊNCIA: Foi sugerida a devolução do dinheiro recebido indevidamente; 24 senadores determinaram isso a seus servidores. Não se sabe quantos devolveram.


NEPOTISMO

FATO: Diretores burlavam a lei antinepotismo empregando parentes por meio de empresas terceirizadas; estima-se que dezenas de parentes estão nessa situação.

PROVIDÊNCIA: Apenas sete parentes de servidores foram demitidos e nenhum processo administrativo contra os diretores foi aberto.

FARTURA DE DIRETORES

FATO: O próprio Senado ficou surpreso com a descoberta de que a Casa tinha 181 "diretores"

PROVIDÊNCIA: Foi anunciada a demissão de 50 desses "diretores", sem redução de salários, mas poucas ocorreram de fato.


CELULAR

FATO: O senador Tião Viana (PT-AC) emprestou um celular do Senado para a sua filha, que viajou de férias para o México.

PROVIDÊNCIA: O senador diz que pagou a conta de R$ 14.758,07, mas não foi punido pelo empréstimo.


DIRETORA EM CAMPANHA

FATO: A diretora de Comunicação Social, Elga Maria Teixeira Lopes, participou de cinco campanhas eleitorais sem pedir licença do cargo de direção do Senado.

PROVIDÊNCIA: Ela entrou em férias e a Diretoria Geral não abriu investigação para apurar o caso. No final de abril, ela pediu demissão. Em seguida, foi recontratada e virou assessora especial de Sarney.

FUNCIONÁRIA FANTASMA

FATO: A funcionária fantasma Luciana Cardoso, filha do ex-presidente FH, admitiu que "trabalha" em casa porque o "Senado é uma bagunça", apesar de estar lotada no gabinete do 1º secretário, Heráclito Fortes (DEM-PI).

PROVIDÊNCIA: Ela entrou em férias. No final de abril, pediu demissão do cargo.

JATINHO

FATO: O senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) usou parte de sua verba de passagens para fretar jatinhos.

PROVIDÊNCIA: Nenhuma. O diretor-geral, Alexandre Gazineo, disse que a operação é legal.

ESCÂNDALO DAS PASSAGENS

FATO: Deputados e senadores levaram parentes e assessores em viagens pelo Brasil e para o exterior usando a cota de passagens aéreas do Congresso.

PROVIDÊNCIA: Câmara e Senado restringiram o uso de passagens. A Câmara anunciou que a cota seria exclusiva aos parlamentares e assessores. Para fazer viagens internacionais, deputado terá que apresentar justificativa prévia. As medidas ainda serão votadas em plenário. No Senado, as novas regras já estão valendo. Os bilhetes só podem ser usados por senadores ou por seus assessores no exercício da função.

terça-feira, 23 de junho de 2009

No Senado não há inocentes

Lucia Hippolito

Por cumplicidade, conivência, omissão ou mesmo descaso, todos o senadores e senadoras estão envolvidos na lama que escorre por todos os poros do Senado Federal.

Durante décadas, receberam as benesses sem saber de onde vinham. Durante décadas utilizaram dinheiro público indevidamente, sem se preocupar com as razões.

Claro que há diferenças. Não se pode reunir no mesmo saco senadores que apenas não se preocuparam em saber se um ato assinado por eles tinha sido ou não publicado, junto com aqueles que privatizaram o Senado Federal para seus próprios interesses e de suas famílias. (veja abaixo a lista dos 37 senadores beneficiados e dos membros da mesa que assinaram atos secretos)

O que suas Excelências parecem resistir a compreender é que os tempos são outros.

Vejamos os protestos no Irã. Em 1973, o golpe militar no Chile expulsou os jornalistas estrangeiros e fechou as fronteiras. Assim os militares puderam ficar à vontade para chacinar milhares de chilenos, sem ter que dar satisfação à opinião pública internacional.

Já no Irã, estes últimos dias têm mostrado que, mesmo que a imprensa estrangeira esteja sendo proibida de trabalhar, milhões de iranianos estão fazendo o trabalho da imprensa, utilizando a internet para enviar vídeos por celular, fotos, mensagens por twitter e blogs. Consta que existem hoje no Irã cerca de 75 mil blogueiros.

O regime iraniano pode fechar ainda mais o país e matar milhares de pessoas. Mas o mundo vai ficar sabendo praticamente em tempo real.

Da mesma forma, parece que os senadores não perceberam que suas práticas são antigas, seu discurso está embolorado, sua retória indignada está completamente obsoleta. Sua visão do próprio cargo precisa de uma atualização urgente.

Hoje não há mais necessidade de esperar oito anos para julgar o desempenho de um senador. São julgados minuto a minuto. A TV Senado, os emails, os blogs, o twitter, as notícias em tempo real, tudo isto transformou o eleitor, sobretudo o mais jovem e mais antenado, num juiz do comportamento de seus representantes.

Senadores com empregados particulares pagos com recursos públicos através do orçamento do Senado. Senadores com familiares empregados com recursos públicos através do orçamento do Senado.

Senadores se apropriando de verbas indenizatórias através de atos secretos.

Planos de saúde para ex-senadores e familiares garantidos por atos secretos.

É um sem-fim de irregularidades.

Não se pode responsabilizar apenas os agora ex-diretores. Os senadores também são responsáveis.

Em tempo: ano que vem tem eleição. Dos 81 senadores, 54 terão que se apresentar aos eleitores para renovar o mandato.

E o mandato de senador é distrital. Ninguém pode se beneficiar de sobras eleitorais, quocientes elevados ou puxadores de legenda.

Estão todos ameaçados. Vamos ver no que dá.

Mas não tentem iludir a sociedade brasileira, clamando inocência.

LISTA DOS SENADORES BENEFICIADOS POR ATOS SECRETOS (segundo o jornalista Leonardo Colon, do Estado de São Paulo)

Aldemir Santana (DEM-DF)
Antonio Carlos Júnior (DEM-BA)
Augusto Botelho (PT-RR)
Cristovam Buarque (PDT-DF)
Delcídio Amaral (PT-MS)
Demóstenes Torres (DEM-GO)
Edison Lobão (PMDB-MA) licenciado para assumir ministério
Efraim Moraes (DEM-PB)
Epitácio Cafeteira (PTB-MA)
Fernando Collor (PTB-AL)
Geraldo Mesquita (PMDB-AC)
Gilvam Borges (PMDB-AP)
Hélio Costa (PMDB-MG) licenciado para assumir ministério
João Tenório (PSDB-AL)
José Sarney (PMDB-AP)
Lobão Filho (PMDB-MA)
Lúcia Vania (PSDB-GO)
Magno Malta (PR-ES)
Marcelo Crivella (PRB-RJ)
Maria do Carmo (DEM-SE)
Papaléo Paes (PSDB-AP)
Pedro Simon (PMDB-RS)
Renan Calheiros (PMDB-AL)
Roseana Sarney (PMDB-MA) renunciou para assumir o governo do Maranhão
Sérgio Zambiasi (PTB-RS)
Serys Slhessarenko (PT-MT)
Valdir Raupp (PMDB-RO)
Wellington Salgado (PMDB-MG)

LISTA DOS SENADORES QUE ASSINARAM ATOS SECRETOS QUANDO INTEGRAVAM A MESA

Antonio Carlos Valadares (PSB-SE)
César Borges (PR-BA)
Eduardo Suplicy (PT-SP)
Garibaldi Alves (PMDB-RN)
Heráclito Fortes (DEM-PI)
Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR)
Paulo Paim (PT-RS)
Romeu Tuma (PTB-SP)
Tião Viana (PT-AC)

domingo, 21 de junho de 2009

Entenda os escandâlos que atingem o Senado

Desde o início da atual legislatura, Casa já foi alvo de 18 denúncias. Do caso Renan à revelação de atos secretos: saiba o que aconteceu lendo mais em Entenda os escândalos que atingem o Senado desde 2007

Lula defende os coronéis

Lucia Hippolito

Em visita ao Casaquistão, o presidente Lula saiu em defesa do senador José Sarney. Segundo o presidente, Sarney tem seu lugar na História e não pode ser julgado como uma pessoa comum.

Espantosa declaração.

Lula, que sentiu na pele o preconceito e a exclusão, tornou-se um conservador, um burguesão, que justifica o injustificável. Privilégios de uma elite decadente, coronelista, patrimonialista, inaceitáveis no Brasil de hoje.

Sarney, Jader Barbalho (cujas mãos Lula beijou), Severino Cavalcanti (a quem Lula defendeu, como injustiçado), Renan Calheiros (aliado e interlocutor do presidente).

O presidente repete comportamentos anteriores, quando passou a mão na cabeça da turma do mensalão. Ou quando passou a mão na cabeça dos aloprados.

O presidente Lula costuma utilizar todo o peso de sua popularidade para absolver quem comete ilegalidades.

Mas o gesto de Lula em relação aos coronéis tem muito de cálculo político.

Os maiores índices de popularidade do presidente encontram-se justamente do Norte-Nordeste, áreas politicamente controladas por esses coronéis, o que há de mais obsoleto na política brasileira.

Nessas regiões, o Bolsa-Família e outros programas federais de transferência de renda contribuíram fortemente para gerar um sólido vínculo entre a população e o presidente Lula.

Boa parte dos moradores dessas regiões, sofrendo sob o jugo de chefetes e de coronéis, vê nos programas do governo Lula uma chance de escapar ao cabresto do coronelismo.

Por isso, cheio de si, talvez Lula não se dê conta de que, ao justificar as ações de Sarney, Jader e companhia, está legitimando ações de quem privatiza o Senado para seus interesses pessoais e familiares.

De quem se apropria de recursos públicos para empregar parentes, cabos eleitorais e apaniguados, impedindo que essas populações tenham acesso a saúde, habitação, saneamento, transporte.

E o presidente Lula é o primeiro líder político do país que tem uma relação direta com essas populações, um vínculo forte e quase instransferível.

Tudo o que essas populações, que vivem sob o jugo do cabresto desses coronéis, querem é a liberdade.

Por isso, quando defende José Sarney, quando beija a mão de Jader Barbalho, quando defende Severino Cavalcanti, em suma, quando defende o indefensável, o presidente Lula está legitimando o mando coronelista sobre estas populações.

Lamentável.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

II Seminário de Habilidades Sociais

CENTRO UNIVERSITÁRIO UNIABEU
CENTRO DE DESENVOLVIMENTO HUMANO UNIABEU
PROJETO DE EXTENSÃO E PESQUISA
PROFº ALBERTO ALVARÃES
17 JUN 2009

ELLYEL DOS SANTOS

II SEMINÁRIO INTERNACIONAL DE HABILIDADES SOCIAIS

Durante os dias quatro (04) e cinco (05) deste mês do ano corrente, realizou-se na UERJ – Universidade do Estado do Rio de Janeiro – o II Seminário Internacional de Habilidades Sociais, organizado pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia Social (PPGPS) – UERJ e pelo grupo de professores pesquisadores filiados ao GT – Relações Interpessoais e Competência Social da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Psicologia – ANPEPP.

Coordenado pelos Professores Dr. Almir Del Prette e Dra. Zilda Del Prette, o evento contou com a colaboração de pesquisadores de várias instituições nacionais e internacionais. Estes, vinculados a programas de pós-graduação, desenvolvem, orientam e compartilham estudos com temática das habilidades sociais.

Diante do objetivo de compartilhar e fazer avançar as principais questões conceituais, empíricas e metodológicas das atividades interpessoais e das habilidades sociais em nosso país, o evento foi contemplado com mini-cursos, mesas-redondas, comunicações livres, mini-conferências e conferências. O evento também foi contemplado com a presença de especialistas do mundo inteiro. Brasileiros, argentinos, uruguaios, espanhóis, portugueses e americanos, marcaram presença.

Diante disto, a abertura do evento, realizada no Anfiteatro Central da UERJ, contou com a participação da Dra. Zilda Del Prette (UFSCar), contextualizando sobre o tema Habilidades Sociais: Um pouco de sua história no Brasil; a Dra. Maria Lucia Seidl de Moura (UERJ), discutindo as Habilidades Sociais: origem e a importância; e, por fim, Eliane Falcone (UERJ), presidente da comissão organizadora do evento, convergindo para o tema: A Necessidade de um Modelo Sócio-cognitivo para os Estudos das Habilidades Sociais.

Desta forma, foram feitas algumas anotações, por mim, em relação aos diversos temas abordados durante os dois dias do evento.

Segundo Del Prette, o campo teórico-práticos das Habilidades Sociais tem origem na Psicologia Clínica e do Trabalho, apesar de os programas de Treinamento de Habilidades Sociais serem tão aplicados na área da Psicologia. Desta forma, Del Prette conceitua Habilidades Sociais como sendo “...um campo com questões teóricas e práticas, cujos significados e desdobramentos são bem mais amplos e complexos do que pode sugerir um exame superficial.”

Concluiu-se, após diversos estudos, que indivíduos com bom relacionamento interpessoal são mais saudáveis, propensos em menor escala a doenças e, por conseguinte, mais produtivos no trabalho. Desta maneira, torna-se trivial que profissionais de diversas áreas sejam habilidosos, a partir de adquirirem competências e habilidades de relacionamento.

De acordo com Del Prette, o conjunto de habilidades sociais relevantes pode ser organizado em classes e subclasses de maior e menor abrangência. Assim, têm-se, as habilidades de comunicação, civilidade, assertivas de enfrentamento ou defesa de direitos e cidadania, empáticas e de expressão de sentimento positivo, sociais profissionais, sociais educativas, e, por fim, de automonitoria.

Conforme Caballo, professor da Universidade de Granada, Espanha, o século XX foi testemunha de notáveis conquistas em relação ao domínio das habilidades técnicas. A partir disto, o treinamento em habilidades sociais é a técnica escolhida hoje em dia em muitos campos.

Tópicos relevantes e discutidos no evento seguem arrolados a seguir. Segundo Del Prette & Del Prette,

• as habilidades sociais são aprendidas e contemplam as dimensões pessoal, situacional e cultural.
• possuir um bom repertório de habilidades sociais não garante, por si só, um desempenho socialmente competente.
• há diferença entre os conceitos de habilidades sociais e competências sociais. O primeiro se refere à existência de diferentes classes sociais de comportamentos sociais no repertório do indivíduo para lidar de maneira adequada com as demandas das situações interpessoais. Enquanto isso, as competências sociais têm um sentido avaliativo e, portanto, qualifica a proficiência de um desempenho e se refere à capacidade do indivíduo de organizar pensamentos, sentimentos e ações em função dos seus objetivos e valores articulando-os às demandas imediatas e mediatas do ambiente.

A partir de estudos empíricos, contestou-se que a maioria das pessoas não são felizes na sua vida social. Desta forma, dificilmente conseguirão ser felizes na vida geral. Segundo Fordyce, com base em estudos experimentais, propôs os fundamentos para ser feliz:
1- Ser mais ativo e manter-se ocupado;
2- Passar mais tempo em atividades sociais;
3- Ser produtivo em trabalho recompensador;
4- Organizar-se melhor;
5- Deixar de preocupar-se;
6- Diminuir as expectativas e as aspirações;
7- Desenvolver um pensamento positivo, otimista;
8- Situar-se no presente;
9- Ter bons autoconhecimento, auto-aceitação e auto-imagem;
10- Desenvolver uma personalidade sociável, extrovertida;
11- Ser autêntico;
12- Eliminar as tensões negativas;
13- Dar importância às relações íntimas;
14- Valorizar e comprometer-se com a felicidade.

Por outro lado, os problemas conjugais, a ansiedade social, a depressão, a esquizofrenia e a deliquencia são áreas patológicas que precisam de tratamento. É nesse momento que o Tratamento em Habilidades Sociais, é comumente empregado.

A falta de uma teoria geral que englobe, na prática, a avaliação e o treinamento das habilidades sociais é, talvez, uma das principais lacunas do tema.

Enfim, é um campo que precisa ser mais explorado e possuir mais fundamentação teórica para poder, assim, aplicar na prática de maneira eficiente e eficaz treinamentos que sondarão com excelência as habilidades sociais de cada indivíduo.

Rádio Sucupira

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Íntegra do discurso do senador José Sarney (PMDB-AP), ontem

“Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, recorro à história para iniciar minhas palavras nesta tarde.

O Visconde do Rio Branco, quando, no Senado Federal, veio defender-se das críticas que lhe faziam sobre a questão do Prata, ele disse: “Defender-se não é fraqueza”.

Joaquim Nabuco também, quando ele foi defender o Ministério João Alfredo, da abolição, dos negócios loyos, chamado de negócios loyos (está no seu livro Discursos Parlamentares), também teve a mesma expressão.

Há um mês ou mais de um mês, eu estive nas faculdades FMU, em São Paulo, com mais de três mil estudantes, falando sobre o Senado, sobre o que representava o Senado, a história do Senado, desde o seu nome, os tempos antigos, até o Senado brasileiro, este Senado que tem uma importância extraordinária na história do Brasil.

Não é a primeira vez que digo isso aqui, vou repeti-la: A instituição é maior do que todos nós somados.

Nós a recebemos assim e temos de transmiti-la da mesma maneira. Todos nós aqui somos transitórios.

Também nos 150 anos do Congresso brasileiro, fui convidado para fazer uma conferência que depois transformei em um ensaio sobre as instituições parlamentares do Brasil. A conclusão maior que tenho é que a diferença que há entre a América espanhola e América portuguesa (e quem fala em América portuguesa fala no Brasil) é que a América espanhola foi feita pelas armas, e aqui no Brasil, nós, o Poder civil foi que construiu este País, e construiu dentro do Parlamento brasileiro, dentro da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Tenho dito isto aqui, já disse uma vez e vou repetir: nós discutíamos, no princípio, sobre liberdades quando tínhamos um rei absoluto; discutíamos sobre justiça quando não tínhamos magistratura; falava-se sobre universidade quando não tínhamos nem escola para aprender a ler.

Portanto, as nossas responsabilidades, a minha visão histórica desta Casa ninguém vai me cobrar porque eu, ao longo da vida, não tenho feito outra coisa senão louvar a Instituição legislativa. E a ela tenho prestado serviços: são 55 anos, 60 de vida pública e 50 dentro do Parlamento.
Não seria agora, na minha idade, que iria praticar qualquer ato menor que nunca pratiquei na minha vida.

Eu aqui no Senado assisti, durante esses anos todos, muitos escândalos, muitos momentos de crise. Mas, em nenhum momento, meu nome esteve envolvido em qualquer dessas coisas de comissões aqui dentro desta Casa.

Então, é com essa responsabilidade que nunca tive meu nome associado a qualquer das coisas que são faladas aqui dentro do Congresso Nacional, ao longo do tempo, porque isso é uma crise mundial. O que se fala aqui no Brasil sobre o Congresso fala-se na Espanha, fala-se na Inglaterra, fala-se na Argentina, fala-se em todos os lugares.

A crise do Senado não é minha, a crise é do Senado. E é essa Instituição que devemos preservar, tanto quanto qualquer um aqui. Ninguém tem mais interesse nisso do que eu, até porque aceitei ser presidente da Casa.
Estou aqui há quatro meses como Presidente da Casa. O que praticamos – está aqui o vice-Presidente da Mesa – é só e exclusivamente buscar corrigir erros, buscar tomar providências necessárias ao resgate do conceito da Casa. Isso evidentemente não se pode fazer do dia para noite, nem é do meu estilo que se o faça soltando fogos de artifícios, até mesmo porque nunca fiz minha carreira política às custas da honra de ninguém, nem às custas da honra da Instituição a que pertenço.

Acho que nós devemos todos, é o Senado, a crise é do Senado não é minha. Eu aqui com a Mesa, não fiz outra coisa senão nesses dias todos, nesses quatro meses me dedicar a essa tarefa. Não devo dizer contudo, que pude me dedicar totalmente, atravessei um problema que todos aqui como pai sabe nesses meses todos, e agora, e graças à Deus libertei-me dele, Deus também está me exigindo a penitência dessas coisas que eu tenho que falar. Mas muito maior foi a sua graça com a recuperação que ele me deu da melhor coisa que eu fiz na minha vida.

Nesses quatro meses, o primeiro problema que surgiu foi problema do Diretor Geral. Os jornais publicaram que o Sr. Agaciel Maia tinha uma casa não declarada no Imposto de Renda. Qual foi a primeira providência imediatamente que tive, como todos nós somos obrigados por lei a mandarmos anualmente as nossas declarações ao Tribunal de Contas, eu determinei que o Tribunal de Contas examinasse esse fato. E em seguida, com a repercussão que tive na imprensa disse ao Dr. Agaciel que o melhor era ele sair do Senado, e aceitei a sua demissão. Depois, veio a notícia de que o Diretor de Recursos Humanos estava envolvido...

Depois vem a notícia de que o Diretor de Recursos Humanos estava envolvido numas firmas que agenciavam os juros nesta Casa. Antes que eu soubesse disso, a minha segunda providência aqui como Presidente, já no terceiro ou quarto dia, foi determinar a todos os bancos desta Casa que só fizessem consignação a 1,5%, que era a taxa da Caixa Econômica, quando tinham bancos que cobravam 4,3%, extorquindo os funcionários da Casa, os mais pobres sobretudo, que, sem ter condições, a eles socorriam.

Em seguida, com o surgimento da existência de firmas feitas pelo Diretor para agenciar empréstimos consignados – e devo dizer que não fixaria antes desta crise o Dr. Zoghbi, só em passagem, porque nunca ele esteve comigo em qualquer audiência ao longo do tempo em que estou aqui, das poucas pessoas que... sobre tudo isso –, qual foi a minha providência? Abrir, pela polícia do Senado, inquérito, porque isso se tratava de um crime. Não era um assunto administrativo, era um assunto criminal.
A polícia da nossa Casa, que disseram que não ia fazer nada, foi recomendada que agisse no maior rigor e o resultado é que indiciou, terminou o inquérito num prazo rápido – muitos se arrastam – e indiciou quatro pessoas: o Diretor de Recursos Humanos, a senhora e mais duas outras pessoas e encaminhou ao Ministério Público, onde está o inquérito mandado pelo Senado.

Assim, nada que tivesse sido feito, de que eu tivesse conhecimento, deixei de fazer. Aqui está o Senador Romeu Tuma, foi chefe da Polícia Federal quando eu fui presidente. Não havia uma denúncia sem que eu não encaminhasse a ele para abrir inquérito na Polícia Federal. Lia nos jornais, mandava um memorando, muitos deles estão guardados lá nos meus arquivos, mais de quatro mil, não eram divulgados, mas ele recebia, e quando saí, estava a quantidade dos inquéritos que foram feitos, qualquer que fosse, o que lia nos jornais.

Quais eram os problemas que existiam aqui pesando sobre o Senado? Problema das passagens. Nos reunimos com a Mesa, com o 1º Secretário e regulamentamos esse problema. De tal modo que estabelecemos normas, normas que não podiam deixar de ser assim, estabelecendo que a partir de agora seriam feitas à maneira como estabelecemos. Proibimos e os senhores todos têm conhecimento das restrições que foram feitas.
Surgiu o problema das horas-extras, o que nós fizemos? Mandamos imediatamente cancelar horas-extras recebidas nas férias e ao mesmo tempo eu mandei, que era competência do meu gabinete, mandei que fossem elas imediatamente cobradas dos funcionários que tinham recebido, para devolução.

Verba indenizatória

Verba indenizatória. O que fizemos? Baixamos uma resolução aqui, na Mesa, regulamentando também a verba indenizatória e mandando publicar, na íntegra, tudo relativo à mesma numa maneira de transparência. Aliás, em matéria de transparência, também ninguém pode me cobrar nada, no Brasil, porque fui eu que criei o Siafi, que todo mundo hoje consulta e que não existia. O que existia era a conta de movimento, Dr. Tasso – o senhor se lembra disso. Que no Banco do Brasil era sem fundo, que o Presidente e o Governo podiam sacar à vontade, mas nós criamos o Siafi, para total transparência, e hoje é, no mundo inteiro, seguido para isso.

Quando assumi, também cada repartição pública tinha uma assessoria de informação e segurança, que era responsável por pegar os atos e saber os que deviam ser divulgados ou não. Mandei extinguir a todas. E aqui, no Senado, estabelecemos – também foi do meu tempo – o projeto Siga-me, para acompanhamento das contas públicas todas. Essas foram providências tomadas por mim a respeito de matéria de transparência.
Então, agora, eu quero dizer que nós tomamos também as seguintes providências: regras para instituição do processo administrativo eletrônico com redução de custos de circulação de documentos impressos – já está entrando em vigor; regras relativas à verba mensal de custeio de locomoção aérea – já falei; restrições para impressão de material gráfico;
Corte no orçamento global do Senado de 10% linear e mais os que estamos fazendo;

Restrições relativas a treinamentos, seminários, congressos e outros tipos de reuniões que estavam servindo de muitos abusos dentro desta Casa;
Redução de cotas e limites de gastos referentes ao uso de telefone funcional, de celulares, pelos diretores;

Extinção da Secretaria de Divulgação e Integração;
Extinção da Subsecretaria de Treinamento e Logística;
Extinção da Coordenação de Análise e Notícia da SECS;
Extinção da função de Diretor-Geral Adjunto;
Extinção da Diretoria Adjunta do ILB;
Extinção da Coordenação de Apoio Técnico e Administrativo do ADVOSF.
Extinção da Subsecretaria de Apoio Técnico do SEEP;
Extinção da Subsecretaria de Planejamento e Execução de Convênios do Gner e contingenciamento de 40,5% no orçamento do Senado referente a despesas com assistência médica e odontológica.
Isso significou cerca de trinta bilhões.

Suspensão de empréstimos consignados do Banco Cruzeiro do Sul, a quem eu proibi, diante das denúncias, de operar dentro do Senado.
Determinação do encerramento de trabalhos de comissão especial.
Extinção de cinco comissões especiais nºs 167, 334, 2761, 3662 e 1021.
Dispensa de 55 servidores da qualidade de membros de comissões especiais, que recebiam por isso;

Dispensa de servidores de membros também de comissões permanentes que recebiam por isso;

Regras e restrições concernentes a execução e registro de pagamentos extraordinários que também foram feitas.

Assim, Srªs e Srs. Senadores, não temos feito outra coisa – o Senador Marconi está aí para testemunhar; o Senador Heráclito está aí para testemunhar. Sempre fui um Presidente do diálogo. Não tomo providências pessoais. Sempre gosto de discutir, de tomar providências colegiadas. Eu reúno a Mesa e discuto.

O Secretário Heráclito Fortes, que tem feito um grande trabalho, está permanentemente comigo, e foi ele quem chegou e me disse que havia algumas restrições e dúvidas em relação à publicação de atos que, às vezes, estavam ou não na rede. Eu disse a ele para irmos em frente e apurarmos. E essa coisa que está aí, que estão publicando, só está porque nós resolvemos apura-las. Fomos nós que resolvemos que aqui resolvemos colocar isso. Se não tivéssemos feito essa determinação, isso não existiria. Ficava tudo como está.

Na realidade, devo dizer que a Comissão está com o seu trabalho encerrado. Infelizmente, o Senado Heráclito Fortes não está aqui. Por isso, não vamos anunciar as suas conclusões, mas, na 2ª feira, naturalmente ele estará aqui, e iremos publicar o Relatório, que está pronto, no qual se esclarece de qualquer maneira esse problema que surgiu, no sentido de que existiam aqui atos secretos.

Eu só conheço um ato secreto, durante o tempo do Presidente Médici, em que ele declarou que iria haver decretos secretos. Eu não sei o que é ato secreto. Aqui, ninguém sabe o que é ato secreto....

O que pode ter....E foi este o objetivo da Comissão: verificar as irregularidades da entrada em rede ou não entrada em rede de determinados atos da administração do Senado, mas isso tudo relativo ao passado; nada em relação ao nosso período. Nós não temos nada que ver com isso. E não vou pegar e dizer e chegar – porque eu não tenho, inclusive, conclusões – e chegar ao que foi feito na presidência tal, tal, tal ou tal, até mesmo porque alguns dos colegas nossos estão mortos e seria uma coisa indevida se nós fôssemos jogar suspeição sobre todo mundo que passou, sobre todas as coisas que houve.

O que eu quero dizer é que hoje, hoje, todos os atos estão na rede. Não existe ato nenhum que não esteja na rede. E, ao contrário do que se pode dizer de ato secreto, ninguém pode tomar posse sem levar a sua nomeação publicada. Como dar posse a alguém sem ter a sua nomeação publicada?! Isso não existe. Se alguém fez, vamos punir, vamos descobrir, e é para isso que a nossa comissão está sendo feita. Mas querer colocar na costa de todos nós (e principalmente eu, que estou dirigindo a Mesa) a responsabilidade pelo que aconteceu, pelo que pode ter acontecido – não sei se aconteceu; nós estamos apurando – é realmente uma coisa que eu digo que é injusta, para não dizer que vou mais longe.

Ora, Srs. Senadores, quais foram os fatos de que eu estou sendo acusado? Depois de 50 anos de vida pública ter passado por outra... porque eu indiquei ao Senador Delcídio Amaral, que está ali, pedindo-lhe que uma sobrinha da minha mulher, que é funcionária do Ministério da Agricultura, fosse requisitada para o gabinete dele. Segundo lugar, que um neto meu foi nomeado para o gabinete do Senador Cafeteira. Está aí ele presente e ele já disse isto: eu não pedi e até mesmo não sabia. E ele mesmo teve a oportunidade de dizer: “Não disse ao Presidente Sarney porque, se tivesse dito, talvez ele não tivesse concordado”.

Então, essa é a minha conduta na vida pública. Então é por isso que eu, depois de ter prestado tantos serviços a este País, depois de passar pela Presidência da República, de enfrentar a transição democrática, como aqui teve oportunidade de dizer o Senador Arthur Virgílio, eu que durante o tempo que teve da... fui o único governador do Brasil que não concordei com o AI-5, que não emprestei solidariedade ao AI-5. Fui o único. No dia 5 de abril, quando todo mundo vivia um medo extraordinário, e era para viver, está nos Anais da Casa o Deputado José Sarney aparteando o Deputado Herbert Levy e eu disse: aqui não se cassa mandato de ninguém se não for dentro das normas, dentro da Casa, como se cassa, protestando contra isso. Dia 5 de abril, no alvorecer da revolução, quando as tropas estavam na rua, eu tive a coragem de afirmar desta maneira. Quem foi o Relator da matéria que acabou com o AI-5? Fui eu.
Quem teve coragem no dia em que o Brasil se encontrava em uma encruzilhada de romper com o PDS e caminhar por um rumo em que pudéssemos sair e o País não tendo traumas? Fui eu.

Então, vê-se agora a pessoa sendo julgada, porque uma neta minha e um neto meu...E, por isso, querem me julgar perante a opinião pública deste País? É de certo modo a gente ter uma falta de respeito pelos homens públicos que nós temos. Se temos erros? Eu não devo deixar de ter erros, mas, esses, eu acho que constituem extrema injustiça.

Mas eu queria contar ao Senado a história de como surgiu a gráfica do Senado, os boletins. Em 1970 ou 1972, precisamente, era Presidente da Casa o Senador Auro de Moura Andrade. E nós publicávamos os atos do Senado no Diário Oficial. E o que ocorria? Muitas vezes, o Diário Oficial atrasava, como ainda hoje tem suplemento diário suplementar – todo mundo conhece isso – que funciona com a mesma data, dois ou três dias depois. E o Senador Auro de Moura Andrade disse: “Não, para a independência do Congresso, nós devemos ter uma gráfica do Congresso para publicar o Diário do Congresso, e nós ficarmos libertos, para dar maior independência ao Poder Legislativo”. E, aí, publicava-se tudo no Diário do Congresso.

Veio a transformação da internet. A partir de 2001, nós criamos a intranet aqui e, em vez de mandarmos publicar no Diário Oficial nosso, que nós tínhamos, nós resolvemos botar os atos oficiais na rede de intranet do Senado.

São cerca de 60 mil documentos, se não me engano, por cada ano, que transitam na rede, relativos à área administrativa desta Casa. Não vou dizer que, nesses 60 mil, não tenham havido erros. Mas foi assim que criamos... Agora, em 2001... Eu vejo aí outro dia: “O Dr. Sarney foi quem...” Eu fui Presidente em 1995! Não fui eu que mandei transformar os boletins de papel para o boletim de colocar na Intranet, para que se pudesse colocar para isso.

Quando fui Presidente desta Casa – nas vezes em que fui –, procurei marcar por atos que pudessem transformar e irem adiante, junto daqui... Eu quero lembrar que a ideia do Prodasen, quem a levantou fui eu. A comissão que determinou que fosse criado o Prodasen foi feita. Éramos eu, Carvalho Pinto, Franco Montoro, Ney Braga. Eu vinha do Maranhão – era Governador –, onde eu tinha levado o primeiro... Já disse isso aqui. Então, pegamos, e era para fazer isso. Quando fui Presidente, era para modernizar a Casa.

Quero dizer – estou vendo o meu colega Pedro Simon – e já disse isso aqui, estou repetindo hoje, mas fiz justiça a ele. Ele tinha uma série de reivindicações a respeito do Plenário. Vivíamos aqui com as atas atrasadas, de seis meses. Não tínhamos planejamento. Fazíamos sessões especiais, colocando aquilo... o que dava margem a se fazer muita coisa e a que o Congresso ficasse sendo mal julgado. E, então, colocamos todas essas reivindicações. A partir daí, tivemos painel; tivemos o planejamento, que está hoje, das matérias desta Casa; acabamos com a entrada de matéria na Ordem do Dia, com arbítrio do Presidente.

Eu não vim para administrar, para saber da despensa do Senado, o que havia lá. Eu vim, eu sou Presidente do Senado, para exercer uma função política; para exercer uma função de que a Casa deve ter representação. Agora mesmo, nós saímos de uma reunião com o Presidente do Senado Francês, em que estávamos discutindo problemas dessa natureza. E uma das coisas que ele me disse também era o seguinte: das vantagens que têm os senadores franceses; também de passagens e de tudo isso que estamos falando aqui. E mais ainda: juros baixos para comprar apartamentos. E mais ainda: ele me falou que continua com o problema da Previdência... Nós estamos vendo o que se sucede, agora, na Inglaterra.
Agora, o que está ocorrendo aqui no Brasil não pensemos que seja uma coisa só nossa, não. O problema mais sério é a crise da democracia representativa. Essa é a que corre – a grande crise – no mundo inteiro. Por quê? Porque a sociedade de comunicação que foi implantada, ela concorre com o Congresso, de maneira que hoje o Congresso tem de dividir suas atribuições com o quê? Com as Organizações Não Governamentais, com a sociedade civil, com as corporações, com todo essa mídia eletrônica que pergunta: “Quem representa o povo, somos nós ou são os congressistas, parlamentares de um ou outro?” Essa é a crise que se indaga. Discute-se isso no mundo inteiro. Não estou falando novidade. Eu mesmo escrevi um artigo para a revista francesa Commentaire, há quase dez anos, a respeito desse problema que surgia, sobre esses problemas da crise da democracia representativa. Então, foi por isso que esses atos todos entraram. E se fala, agora, a respeito dos atos secretos.

Vamos agora dizer, para terminar, eu quero dizer ao Senado, que os Srs. Senadores e meus colegas, as Srªs Senadoras, fiquem absolutamente tranquilos quanto a uma coisa: nós faremos tudo que for necessário, tudo que for para a moralidade e o bem do Senado. E eu quero até a colaboração dos colegas, quem tiver uma ideia, como teve o Senador Suplicy, que me deu hoje de manhã, que nós vamos estudar e eu sou favorável a ela, que se coloque na Internet o nome de todos os funcionários, todos que estão dentro dessa Casa com os respectivos vencimentos que têm. Então, quem tiver boa ideia que me traga. Quem tiver ideia para colaborar que traga para mim, para a Mesa. Nós estamos prontos para fazer isso. Nós estamos fazendo isso. Nós vamos fazer isso. Agora, chegar e ficar nessa coisa que nós estamos vendo aí, que só tem uma finalidade: a finalidade de enfraquecer as instituições legislativas, no dia em que se enfraquecer o Senado. Eu acredito que muita gente está interessada em enfraquecer o Senado e as instituições legislativas. Por quê? Porque ao enfraquece-las, elas passam a ser exercidas por outros, que não mais: são grupos econômicos, são alguns setores radicais da mídia, são radicais corporativistas que passam exercer, pressionar e ocupam o lugar das instituições legislativas. É aqui só? Não. É no mundo inteiro que está se vendo esse processo.

Então, eu acho que nesse momento nós devemos pensar no Senado da República, que é nele que estou pensando e é nele que eu irei pensar e é nele que vou continuar a trabalhar. Não tenho nenhum motivo ou problema na consciência que não seja o de ter cumprido o meu dever e acho que não posso ser julgado. É uma injustiça do País julgar um homem como eu, com tantos anos de vida pública, com a correção que tenho de vida austera, de família bem composta, que tem prezado a sua vida para a dignidade da sua carreira e nunca, aqui, dentre os colegas, que não tenham encontrado, sempre de minha parte, um gesto de cordialidade e, ao mesmo tempo, participado. Nunca neguei um voto que fosse a não ser no sentido de avançarmos na melhoria dos costumes da Casa.

Agora, em relação ao passado – porque nenhum desses atos que falam se referem à nossa gestão. Então, apure-se. Quem for responsável, que seja punido e serei eu que estarei à frente para punir. Se eu estiver errado em alguma coisa e, também, entre todos os outros que passaram aqui – todos nós – porque todos nós somos responsáveis. Ontem o Senador Pedro Simon me dizia isto e é verdade, Senador Pedro Simon – todos nós. Nós aprovamos, aqui, os Atos da Mesa. Todos nós aprovamos. O Senado, no seu conjunto, aprovou os Atos da Mesa.

Todos nós, então, devemos, agora, da mesma maneira, vermos o que está errado e corrigirmos o que está errado e eu estarei, aqui, pronto para cumprir tudo o que o Senado decidir e, ao mesmo tempo, vou levar em frente, doa a quem doer, resistências que tiver – porque isto são resistências mas nós iremos em frente. Nós iremos fazer do Senado tanto o que pudermos. Iremos fazer do Senado aquilo que todos os Senadores desejam: uma Casa respeitada.”

Sua Excelência não convenceu

Lucia Hippolito

Muito nervoso, maltratando a língua portuguesa, o presidente do Senado, senador José Sarney, foi à tribuna para se defender das críticas, segundo ele, muito injustas, que não respeitam sua biografia.

Não convenceu. Listou vários fatos de sua biografia. Falou dos 50 anos de vida pública, misturou fatos ocorridos durante a ditadura com ações suas na presidência da República.

Eximiu-se de toda e qualquer responsabilidade pela desmoralização completa por que passa o Senado da República. Repetiu inúmeras vezes que a crise não é dele, é do Senado.

Lamento, mas o senador José Sarney é o maior responsável pela crise.

Não se trata de desmentir ou de apagar a biografia do nobre parlamentar. Longe disso. Quem reescrevia o passado eram os historiadores soviéticos. A história de José Sarney é bem conhecida.

O que há de mais curioso a ressaltar no discurso de quase meia hora é a total falta de compromisso de José Sarney com os últimos dez ou 15 anos da história do Senado. Sarney discursou como se tivesse chegado ontem à presidência da Casa.

Como se não estivesse presidindo o Senado pela terceira vez. Como se não fosse pessoalmente responsável pela criação de cerca de 50 das 181 diretorias recém-descobertas na Casa.

Como se não fosse pessoalmente responsável pela nomeação de Agaciel Maia como diretor-geral do Senado. Como se não tivesse legitimado uma série de atos de Agaciel Maia e do diretor de Recursos Humanos, João Carlos Zoghbi.

Não é trivial privatizar o Senado da forma como o Senador José Sarney o fez. Tinha até outro dia um neto e duas sobrinhas empregados. Recebia auxílio-moradia tendo residência particular em Brasília e tendo à sua disposição, desde fevereiro, a residência oficial do Senado.

Sua estrategista de campanha era também diretora do Senado. Exonerada para fazer campanha, teve a exoneação cancelada (tudo através de documentos sigilosos).

Sua casa em São Luis era protegida por seguranças do Senado... embora ele seja senador pelo Amapá.

Semana passada, sua Excelência foi padrinho de casamento da filha de Agaciel Maia, ex-diretor-geral do Senado. Que agora, depois de prestar relevantes serviços ao senador Sarney, está sendo jogado às feras. Pelo senador Sarney.

O senador José Sarney não tem direito de afirmar que a crise não é dele.

Quando tenta diluir a crise do Senado brasileiro na crise de representação mais geral, que acontece em muitos parlamentos do mundo, o senador tenta uma manobra esperta.

É verdade que há crise em outros países, mas lá os parlamentares renunciam, pedem desculpas públicas, devolvem o dinheiro desviado. Alguns até se matam.

Não se espera nenhuma atitude radical por parte do senador Sarney. Nem mesmo a renúncia à presidência do Senado virá por livre e espontânea vontade.

Mas o clima de rebelião entre os funcionários do Senado é evidente. A forte reação da opinião pública também.

Uma vez o senador José Sarney contratou a Fundação Getúlio Vargas para fazer um diagnóstico da situação do Senado e propor medidas. Deu certo. Nada aconteceu.

Desta vez, repetiu a manobra. Mas suspeito muito de que não vai funcionar.

Os tempos são outros, Excelência.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Não foi erro técnico, foi erro ético

Alexandre Garcia

O que o Senado pode fazer? Afastar só o diretor geral não vai funcionar. O que tentam fazer é aquela tentativa que já foi usada para camuflar o escândalo, como foi a convocação da Fundação Getúlio Vargas, pela segunda vez, supostamente para reformar a administração do Senado.

Pelo que tem aparecido, pelo número de atos secretos, ainda há muito segredo a desvendar. Um grupo no Senado conseguiu descumprir todos os princípios exigidos pela Constituição para o serviço público: legalidade, moralidade, impessoalidade e publicidade. Nesse período, aparecem à frente Sarney, Renan e Jáder. Na retaguarda, Agaciel, Zoghbi e Gazineo.

O senador Cristovam acha que é caso de polícia. Afinal, usaram o dinheiro dos impostos do povo, que é sagrado. Também sugere a renúncia de Sarney. Afinal, há menos de um mês, o presidente da Câmara dos Comuns, na Inglaterra, nem estava diretamente envolvido em gastos exagerados da casa, e ainda assim, renunciou à presidência e ao mandato.

Aqui, há uma abundância de distribuição secreta do dinheiro do povo, pagando salários altíssimos a parentes de dentro e fora de casamento, a gente investigada e até presa pela Polícia Federal, gente demitida em público e readmitida em segredo - tudo protegido por atos escondidos, denunciando que sabiam que praticavam ilegalidades. Agora, alegam erro técnico para a não publicação. Não foi erro técnico. Foi erro ético.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

O Senado é deles!

Lucia Hippolito

O mais recente escândalo a abalar o Legislativo e a minar a confiança dos cidadãos nas instituições chega na forma de cerca de 500 documentos sigilosos, encontrados por uma auditoria interna do Senado.

Tais documentos sigilosos dizem respeito a nomeações, exonerações, pagamentos de horas extras, pagamentos de planos de saúde odontológicos e clínicos para familiares de ex-parlamentares, entre outras aberrações inadmissíveis num estado democrático de direito.

Esta patologia aponta para duas doenças distintas, mas que se intercomunicam.

Primeiro, para a privatização dos espaços públicos. Tomemos o caso do senador José Sarney, presidente do Senado, por exemplo. O nobre parlamentar não reparou que mensalmente eram depositados em sua conta bancária R$ 3.800,00 de auxílio-moradia – embora o senador resida em uma bela casa em Brasília e tenha à sua disposição a residência oficial da Presidência do Senado.

O nobre senador também não sabia que sua especialista em campanhas, Elga Mara Teixeira Lopes, era, nas horas vagas, diretora do Senado Federal. Confrontado com os fatos, exonerou a especialista e a contratou como assessora pessoal.

Ainda, requisitou seguranças do Senado para fazer segurança privada em suas propriedades em São Luís. Embora o nobre parlamentar tenha sido eleito... pelo Amapá.

É como eu digo. Sarney não é um fofo?

Tem mais. A filha do senador Sarney, então senadora Roseana Sarney, considerou que era perfeitamente ético proporcionar um fim de semana em Brasília, na residência oficial do Senado, para um grupo de amigos maranhenses, companheiros de pano verde, já que a senadora não podia encontrá-los em São Luís, como fazia todos os fins de semana. Problema: os amigos tiveram as passagens pagas pelo Congresso Nacional.

A assessora de imprensa da senadora Roseana Sarney, a jornalista Tania Fusco, era também contratada como diretora do Senado. E não há notícia de que tenha sido exonerada.

Em seguida, ficamos sabendo que Fernando Sarney, também filho do senador Sarney, não é parlamentar, mas tem viagens de seus assessores pagas com cotas de passagens da Câmara dos Deputados.

E quando pensávamos que a privatização do Senado tinha chegado ao máximo, chega a notícia de que um neto do senador Sarney, filho de Fernando Sarney, foi contratado para trabalhar no gabinete do senador Epitácio Cafeteira, por R$ 7.600,00. O jovem tem 22 anos e ainda não se formou em Administração.

Cafeteira queria “pagar um favor” prestado por Fernando Sarney. Outro fofo! Casa-Grande e senzala perde!

Quando a lei do nepotismo começou a ser aplicada no Senado, Sarney Neto foi exonerado num desses documentos sigilosos, que não foi publicado em lugar nenhum. Mas a família não ficou ao relento. A mãe do jovem foi contratada para o mesmo cargo do filho, com o mesmo salário. Era pensão?!

Pensam que acabou? Pois o nobre senador José Sarney também não sabia que sua sobrinha Vera Portela Macieira Borges, filha de um irmãos de dona Marly Sarney, fora contratada em 2003 para um cargo de confiaça de assistente parlamentar, com um salário de R$4.600,00. Detalhe: ela mora em Campo Grande (MS), a mais de mil quilômetros de Brasília!

Como é espaçosa essa família Sarney! E sempre ocupando espaços com dinheiro público.

Novamente, Casa-Grande e sensala perde!!!

A segunda doença apontada por esta patologia dos documentos secretos é a auto-suficiência da burocracia.

Um dos poderes da República é dirigido por burocratas arrogantes, que se julgam no direito de emitir documentos sigilosos, promovendo uns, exonerando outros, pagando horas extras inexistentes.

Tudo isto sem a necessária transparência nem a necessária publicidade que devem obrigatoriamente presidir os atos da administração pública.

E que não se diga que são pequenas transgressões. Estamos falando de um orçamento anual de DOIS BILHÕES DE REAIS!!

Ocorre que, na administração pública, atos que não foram publicados não têm validade. Para isso existem os boletins administrativos, e, no caso do Legislativo, o Diário do Congresso Nacional.

Imaginem se uma lei, aprovada no Congresso, não for publicada! Não é por outra razão que as leis sempre terminam da mesma forma: "Esta lei entra em vigor na data de sua publicação".

E agora? Os nomeados por esses documentos sigilosos vão devolver aos cofres do país os salários que receberam indevidamente? Mas e aqueles que são inocentes e que realmente trabalharam? Como ficam?

Finalmente, é conveniente responsabilizar por todas as malfeitorias o antigo diretor do Senado, Agaciel Maia. Por mais poderoso que fosse, seus poderes emanavam da Mesa Diretora, ou seja, do presidente do Senado Federal.

Se existem documentos sigilosos datados de dez anos atrás, isto é, 1999, vamos lá. Os responsáveis por mais este capitulo de privatização de um espaço público e de desprezo pelo estado democrático de direito são os presidentes do Senado nesse período: Antonio Carlos Magalhães (2000-2001); Jader Barbalho (2001); Edson Lobão (2001); Ramez Tebet (2001-2003); José Sarney (2003-2005); Renan Calheiros (2005-2007); Tião Vianna (2007); Garibaldi Alves (2007-2009) e José Sarney (2009-...)

(Como se vê, é um desprezo suprapartidário.)

Até quando a sociedade brasileira vai continuar de cabeça baixa?

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Em dia histórico para a Economia, Selic é de um dígito

Os juros básicos da economia caíram hoje para um dígito, o que não acontece no Brasil há mais de 30 anos. O Banco Central (Bacen) cortou a Selic em 1,0 ponto percentual, reduzindo a taxa para 9,25% ao ano. Hoje foi um dia histórico. Juros de um dígito inexistem no país desde o governo militar, quando a inflação era muito baixa. Depois, no próprio governo militar, a inflação subiu e os juros, também. Nunca saíram das alturas. Os juros agora estão caindo.

Esse corte não se resume a crise. Os juros iam cair de qualquer forma. O Banco Central não vai reagir porque o PIB do primeiro trimestre, divulgado ontem pelo IBGE, não caiu tanto quanto se temia. Nós merecemos, fizemos muito dever de casa. Existe quem acha, inclusive, que isso poderia ter acontecido há mais tempo. O Brasil tem juros cronicamente altos.

A Selic é a taxa básica de juros. Não é a que regula, por exemplo, a tomada de empréstimos bancários e de empresas. Mas é a taxa básica da economia, que orienta as outras taxas. É importante que ela caia, o que significa ainda que o governo vai gastar menos com pagamento da dívida.

O mundo pode não entender essa alegria. Todo mundo tem juros de um dígito há milênios. Mas, para nós, é uma absoluta novidade.

Neste semestre, a produção industrial brasileira apresentou uma queda de 14% contra o mesmo mês do ano passado. A produção industrial, normalmente, dá uma pista do desempenho do PIB. Existe a esperança que, comparado ao primeiro trimestre, o segundo trimestre tenha uma pequena recuperação.

A crise pode ter acelerado a redução da taxa básica de juros pelo Banco Central (Bacen), mas o momento histórico que vivemos hoje, com uma Selic abaixo dos 10% ao ano, vem sendo construído há muitos anos. Surge agora uma grande questão: o Brasil tem condições de manter os juros em um dígito? Eu acredito que sim.

A economia brasileira é menos vulnerável do que antes. E isso vem sendo construído há anos, resultado de muitas mudanças e opções feitas pelo país.

Durante o período em que foi oposição, PT entrou na Justiça contra a Lei de Responsabilidade Fiscal. Era contra o Plano Real e criticava o regime de metas de inflação. Mas depois o governo Lula manteve políticas que garantiram a estabilização.

O câmbio flutuante também foi um conquista, após quatro anos de um regime de câmbio fixo para derrubar a inflação. Ao chegar ao poder, Lula manteve o câmbio flutuante.

No final do governo Fernando Henrique, quando estava claro que Lula ganharia as eleições, o então ministro da Fazenda, Pedro Malan, declarou que o importante não era o partido que chegaria ao poder, mas o projeto em curso. Que a moeda forte era uma decisão da sociedade.

O mérito foi um governo acompanhar o outro. O Itamar Franco era contra a abertura da economia conduzida pelo presidente Collor, mas não a revogou quando assumiu a presidência. Foi uma caminhada longa demais.

O governador José Serra disse o tempo todo que os juros poderiam cair mais cedo. As coisas não são exatamente, portanto, preto no branco, PSDB e PT.

Atualmente, a Selic do Brasil é a mesma que a da Turquia, 9,25%.

Hoje é, portanto, o dia histórico para a economia brasileira comemorar!

O que representa a Selic na prática

O Globo

As elevações e as quedas na Taxa Selic afetam a vida dos cidadãos de várias maneiras:

- Emprego: com dinheiro mais barato, as empresas conseguem investir mais, criando e mantendo empregos.

- Crédito: quando a Selic cai, isso abre o caminho para os bancos e as financeiras reduzirem os juros para o consumidor, mesmo que isso demore. Podem cair as taxas de cartões de crédito, cheque especial e crédito direto ao consumidor.

- Investimentos: o patamar da Selic determina os rendimentos das aplicações em renda fixa. Quanto menor a taxa, menos retorno dão essas aplicações.

Nota do Copom

Ao final da reunião, o Copom divulgou o seguinte comunicado:

"Tendo em vista as perspectivas para a inflação em relação à trajetória de metas, o Copom decidiu reduzir a taxa Selic para 9,25% ao ano, sem viés, por seis votos a favor e dois votos pela redução da taxa Selic em 0,75 ponto percentual. Levando em conta que mudanças da taxa básica de juros têm efeitos sobre a atividade econômica e sobre a dinâmica inflacionária que se acumulam ao longo do tempo, o Comitê concorda que qualquer flexibilização monetária adicional deverá ser implementada de maneira mais parcimoniosa. O Copom acompanhará atentamente a evolução do cenário prospectivo para a inflação até sua próxima reunião, para então definir os próximos passos da estratégia de política monetária".

A próxima reunião do Copom está agendada para 21 e 22 de julho.

Selic tem taxa de um dígito pela 1ª vez na história, a 9,25%

Copom surpreende mercado e mantém ritmo de corte de juros, reduzindo a Selic em um ponto porcentual

Agência Estado

SÃO PAULO - O Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu cortar a taxa básica de juros (Selic) em 1 ponto porcentual, de 10,25% ao ano para 9,25% ao ano, sem viés. A decisão foi tomada por 6 votos a favor de 1 ponto e dois votos, pela redução de 0,75 ponto porcentual. É a primeira vez desde que a Selic foi criada, em 1986, que ela fica em um dígito.

Na reunião anterior, em 29 de abril, o corte também havia sido de 1 ponto porcentual. Em 11 de março, a redução dos juros foi mais agressiva, de 1,5 ponto, e na primeira reunião do ano, em 21 de janeiro, a taxa caíra 1 ponto. Neste ano, portanto, o juro básico acumula uma redução de 4,5 pontos porcentuais.

Em nota à imprensa divulgada após a decisão, o BC sinaliza que deve reduzir o ritmo dos cortes nas próximas reuniões. "Levando em conta que mudanças da taxa básica de juros têm efeitos sobre a atividade econômica e sobre a dinâmica inflacionária que se acumulam ao longo do tempo, o Comitê concorda que qualquer flexibilização monetária adicional deverá ser implementada de maneira mais parcimoniosa", diz o texto.

Na nota, o BC afirma que "acompanhará atentamente a evolução do cenário prospectivo para a inflação até a sua próxima reunião, para então definir os próximos passos da estratégia de política monetária".

Surpresa

A maioria dos economistas do mercado financeiro acreditava que o BC teria uma postura menos agressiva na decisão desta quarta, porém ainda de corte na taxa básica de juros. Conforme levantamento feito pela Agência Estado com 60 instituições, antes das divulgações do relatório de emprego nos EUA e do PIB no Brasil, mais da metade, ou 41, trabalhava com uma expectativa de redução de 0,75 ponto porcentual, contra um grupo de 16 instituições que ainda via espaço para uma redução de um ponto porcentual na Selic e apenas três economistas com estimativa mais conservadora, de diminuição de 0,50 ponto porcentual.

Na terça-feira, após a divulgação do PIB do primeiro trimestre - com taxa negativa, mas não tão ruim quanto as previsões -, o mercado eliminou apostas mais agressivas de corte de juros (de 1 ponto porcentual) e fez as fichas convergirem para a de redução de 0,75 ponto porcentual. Mas acabou sendo surpreendido pelo BC.

O Copom voltará a se reunir para decidir sobre a taxa básica de juros nos dias 21 e 22 de julho deste ano. A ata com as explicações da decisão de hoje será divulgada pelo Banco Central na quinta-feira da próxima semana (dia 18 de junho).

terça-feira, 9 de junho de 2009

BBC Brasil

Entenda o que a recessão técnica significa para a economia brasileira

Os dados sobre o PIB (Produto Interno Bruto) divulgados nesta terça-feira indicam que o Brasil entrou em recessão técnica, caracterizada por dois trimestres consecutivos de queda (em relação ao trimestre anterior).

Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o PIB do primeiro trimestre deste ano caiu 0,8% em relação aos últimos três meses de 2008, quando já havia recuado 3,6% em comparação com o terceiro trimestre.

Na comparação com o primeiro trimestre do ano passado, a queda foi de 1,8%.

Apesar dos números negativos, analistas afirmam que a economia brasileira apresenta sinais de recuperação e que o PIB vai voltar a crescer já neste segundo trimestre, encerrando o período de recessão técnica.

Abaixo, a BBC Brasil responde a algumas perguntas sobre os motivos que levaram a economia brasileira a entrar em recessão técnica e os sinais de recuperação já existentes.

Como o PIB é calculado?

O PIB representa a soma das riquezas produzidas pelo país. Quando o PIB é analisado pela ótica de quem produz essas riquezas, entram no cálculo os resultados da indústria (que respondem por 30% do total), serviços (65%) e agropecuária (5%).

Outra maneira de medir o PIB é pela ótica da demanda, ou seja, de quem compra essas riquezas. Nesse caso, são considerados o consumo das famílias (60%), o consumo do governo (20%), os investimentos do governo e de empresas privadas (18%) e a soma das exportações e das importações (2%). Esses dois cálculos devem sempre chegar ao mesmo resultado.

O PIB é um indicador para medir a atividade econômica do país. Quando há queda de dois trimestres consecutivos no PIB, a economia está em recessão técnica.

O que levou o Brasil a entrar em recessão técnica?

A recessão é caracterizada por uma forte queda no crescimento de uma economia e é definida por um conjunto de indicadores. O termo "recessão técnica" é um jargão usado por economistas para definir um período de dois trimestres consecutivos de queda no PIB.

Os dois trimestres consecutivos de queda no PIB brasileiro foram um reflexo da crise econômica mundial, que se agravou a partir de setembro de 2008 e levou vários países a entrar em recessão.

Que setores foram os principais responsáveis pela queda do PIB?

Indústria e comércio exterior foram alguns dos setores da economia brasileira mais afetados pela crise, segundo economistas consultados pela BBC Brasil.

No primeiro caso, o destaque negativo foi para a indústria de bens de capital, que reflete a intenção de investir, diz o economista-chefe da LCA Consultores, Bráulio Borges.

A economista Marcela Prada, da Tendências Consultoria, afirma que, a partir do quarto trimestre do ano passado houve uma reversão da forte alta nos investimentos que vinha ocorrendo até o terceiro trimestre.

Que setores tiveram desempenho melhor?

Segundo o economista Bráulio Borges, o consumo das famílias foi o que evitou uma queda mais pronunciada do PIB brasileiro. Esse indicador responde por 60% do PIB e considera consumo de bens e de serviços, como educação e saúde, por exemplo.

De acordo com o IBGE, as despesas de consumo das famílias tiveram crescimento de 0,7% no primeiro trimestre deste ano, na comparação com o quarto trimestre de 2008.

O consumo do governo também se manteve em crescimento, apesar da crise.

Quais os sinais de recuperação da economia brasileira?

O consumo familiar deve puxar a recuperação da economia brasileira, segundo economistas entrevistados pela BBC Brasil.

De acordo com Borges, medidas adotadas pelo governo, com redução da taxa de juros e a normalização do crédito a pessoa física deverão impulsionar o consumo.

"A confiança vem se recuperando", diz a economista Marcela Prada. Segundo ela, porém, o consumo interno não é o suficiente para que o Brasil volte a crescer no patamar de antes da crise.

No caso dos investimentos, o economista da LCA afirma que ainda não há sinal claro de retomada, mas isso deve ocorrer ao longo do ano.

"Acho que até o final do ano outros componentes vão mostrar recuperação", diz Borges.

A indústria vem se recuperando, mas ainda em ritmo lento. Borges afirma que dados recentes da indústria indicam que a ociosidade está diminuindo.

"Isso significa que a indústria está produzindo mais, que deve demitir menos e que pode voltar a investir mais à frente", diz Borges.

Quando o Brasil deverá voltar a crescer?

Os números divulgados pelo IBGE se referem ao período de janeiro a março. Segundo os analistas consultados pela BBC Brasil, neste segundo trimestre, que se encerra no final de junho, a economia brasileira já terá crescido.

"Estamos falando de uma situação até março deste ano. O Brasil estava em recessão técnica entre o quarto trimestre de 2008 e o primeiro trimestre de 2009. Mas já estamos no fim do segundo trimestre, nossa estimativa é de que o país já está saindo da recessão técnica", diz o economista-chefe da LCA.

A previsão dos economistas consultados pela BBC Brasil é de que o PIB vai voltar a crescer nos próximos três trimestres (na comparação com o período imediatamente anterior).

Alguns economistas afirmam que o PIB de 2009 já vai apresentar crescimento em relação a 2008. Outros analistas ainda prevêem um PIB negativo neste ano.

Na última pesquisa Focus, realizada pelo Banco Central com o mercado financeiro, a previsão era de queda de 0,71% no PIB em 2009.

Todos os consultados pela BBC Brasil, porém, afirmam que em 2010 a economia vai voltar a crescer. A previsão da Focus é de crescimento de 3,5% em 2010.

Um dos fatores apontados pelos analistas é a redução da taxa básica de juros, a Selic, que atualmente está em 10,25% ao ano.

A expectativa dos especialistas consultados pela BBC Brasil é de que o Banco Central mantenha o ritmo de cortes na Selic e chegue ao fim do ano com a taxa em torno de 9%.

Nesta quarta-feira, o Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central se reúne para decidir o rumo da taxa Selic.